sexta-feira, novembro 24, 2006

Parte I - O homem sem nome - continuação

Três passos atrás entrei no supermercado. Notas soltas de um anúncio.
Faço parte deste sistema de contagem. Conto os trocos para o leite, conto os trocos para a manteiga, e cá fora dou uns trocos ao ucraniano velho e rabugento que os gasta numa garrafa de vinho e duas ameixas. Falta-lhe um dente de lado. Como a mim. Cumplicidade oral.

Dois meses depois voltei lá. A ver se estava tudo tal qual me tinham dito que estaria. Os repositores da vida em prateleiras. Sempre de cu esticado e a repor, a repor. A repor os dias cinzentos. Faltavam dois. A repor momentos de felicidade. A prateleira estava quase vazia.
A repor catástrofes. Dessas quase ninguém leva. Acho que lhes falta uma boa imagem de marca.

Entrei pelo corredor esquerdo para escapar à vizinha que estava a comprar um atropelamento.
Não tenho paciência para a aturar.

O carrinho de compras tem uma roda perra. Acordei.

Um dos repositores dirige-se a mim:
- Espere! Tem que esperar um pouco, desculpe. A senhora da limpeza está quase a acabar.
Não gosto de esperar, mas agora o rapaz já voltou para trás e não há nada a fazer.
Se calhar não era repositor. É um polivalente. Como eu. Não tenho nome mesmo por causa disso. Quando nasci os meus pais acharam que dar-me nome iria condicionar muita coisa na minha vida e acharam que eu deveria ser livre para o escolher.
Tal como o furo nas orelhas, enfim. A verdade é que ser livre me trouxe uma série de problemas.
Nunca consegui escolher o meu nome.

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