Parte I - O homem sem nome
Vida matreira, esta. Sem eira nem beira.
Paisagens escuras, com poucos pormenores, sim. Quando vamos de olhos no chão não reparamos. Não reparamos no puto que ía sendo atropelado, na vendedora de castanhas, no carro com as rodas em cima do passeio, no cartaz de cinema rasgado na ponta, nas calças mal dobradas que levamos vestidas, no sonho esquisito que entrou na nossa mente e teima em substituir a realidade.
Olha, uma beata! 5 minutos da vida de alguém. Sugada, aspirada, cuspida e deitada fora. Há mais no pacote. Mais 19 bocados de vida de alguém, sugados, aspirados, cuspidos e deitados fora.
Posso pensar que esta história poderia começar bem, mas a verdade é que o princípio é um conceito difícil, num universo sem tempo. O big bang da vida de alguém. Todos os dias um big bang, crédito para um carro, novo big bang, de manhã sem dinheiro, mais um big bang, o terror da sida, big bang, um tsunami na Ásia, big bang, o katrina, big bang, a cura, big bang, a ânsia de uma vida melhor, big bang, o ecrã plasma, o novo clio, big bang, a conta da luz, a retrete entupida, o cinismo alheio, a comida estragada, um cão morto na estrada, BIG BANG!
BIG BANG!
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